Medo de Viajar Sozinha com Heloísa Capelas

Transcrição do Podcast Papo de Viajante Solo – EP#4

O medo nos constitui, o medo nos caracteriza. Nós só temos controle sobre a nossa mente. Nós criamos a nossa realidade

Medo de Viajar Sozinha com Heloísa Capelas e Denise Tonin traz muitas reflexões sobre o medo como instinto de sobrevivência, sobre o medo que nos paralisa e sobre os nossos pensamentos. Escute ou leia!

Comecei a me lembrar que, quando eu comecei o blog, não me senti muito à vontade para falar sobre o medo de viajar sozinha por não ser uma psicóloga, por não ter propriedade para falar do assunto, a não ser falar da minha própria experiência.

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Lembro que, então, fui a São Paulo, era janeiro de 2017, pois resolvi falar mais profundamente sobre esse tema. Fui entrevistar a Heloísa Capelas, que é uma pessoa que tem 30 anos de experiência em desenvolvimento humano. Ela é autora do livro “O Mapa da Felicidade” e coautora de vários outros livros.

A gente bateu um papo sobre medo e sobre o medo de viajar sozinha. E é dela essa frase que iniciei o texto: “o medo nos constitui, o medo nos caracteriza”.

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Veja o que ela disse:

“Bom, nós, seres humanos, temos medo, dor e amor. São três características humanas.

O medo e a dor são características do bicho, do animal. E o amor é uma característica humana. Então a gente vai viver com isso. Com medo, nós vamos sentir dor. Então não existe um humano que ainda não tenha sentido dor.

E a nossa capacidade de amar é algo em processo ainda. Nós ainda estamos aprendendo, porque a gente é muito pouco humano ainda.

Quando descobriram o nosso DNA, descobriram que 98% do nosso DNA é do chimpanzé. Então eu costumo dizer que nós somos só 2% humano. Isso significa que a gente tem muito mais medo e muito mais dor do que capacidade de amar.

Bem, a dor é inevitável. Nós vamos sentir dor, então pra nascer tem dor, pra crescer tem dor. Nós vivemos e nos machucamos, corremos riscos, tem dor.

E o que a gente vai fazer com medo? Porque é o medo que nos paralisa. Existe o medo bom e o medo ruim. O medo da segurança e o medo que nos impossibilita, que eu acho que é esse o medo que a gente precisa conversar.

Então, eu não vou viajar porque eu tenho medo. Uma das dicas que eu dou é: “medo de quê?”. Porque para poder conviver com o medo, eu preciso saber de que é esse medo. Por quê? Porque quando eu falo de medo, eu estou falando de um monstro, de algo muito grande que eu não vou dar conta. E quando eu digo “eu tenho medo de…”, eu diminuí esse monstro e ele ficou aqui, um filhote. Ah tá, um filhote eu posso dar conta, porque é só esse medo.

Então é algo que eu proponho para as pessoas refletirem. Qual é a fantasia que vem na sua cabeça quando você pensa em viajar sozinha?”.

Aumente a consciência sobre o medo

Essa dica da Heloísa é muito bacana, porque quando a gente aumenta a nossa consciência sobre o medo, quando a gente entende medo do que nós temos, a gente esmiúça, vai lá no fundinho, a gente consegue lidar melhor com isso.

Eu vou te dar um exemplo simples, básico : tenho medo de chegar na minha viagem sozinha e, como eu não falo um outro idioma, não falo inglês, tenho medo de não me comunicar.

Isso é uma coisa que é real, você consegue entender, enxergar e você pode tomar alguma atitude para diminuí-lo ou para você se sentir confortável com esse medo, vamos dizer assim.

E aí, o que você pode fazer? Você pode instalar um aplicativo no seu celular, que vai te ajudar no caso de você precisar se comunicar em polonês, por exemplo. Ou você pode aprender palavras básicas de polonês.

Vou te dar um outro exemplo prático. Esses medos que eu estou comentando aqui, são medos que já me falaram, que as meninas já comentaram comigo. Então outro seria o seguinte: eu tenho medo de ficar doente durante a minha viagem solo. Ok, isso pode acontecer, mas é uma possibilidade. Você não tem controle sobre isso, certo?

Então, o que você pode fazer em relação a isso? Você pode contratar um seguro viagem que no caso, se, por um acaso você ficar doente durante a viagem, você tenha condições de se tratar, de consultar um médico, de comprar remédio, se necessário for. Você tem uma assistência. Então você está se precavendo, no caso de acontecer alguma coisa nesse sentido.

A outra coisa que você pode fazer é consultar o seu médico antes de viajar e saber se está tudo bem com a sua saúde. Se você tem uma pequena e leve dorzinha no dente, você pode ir ao dentista. Então você pode tomar essas atitudes que podem te deixar mais segura e mais confortável na hora de viajar. 

Então esses foram dois exemplos que podem te ajudar nesse caso, depois que você entendeu quais os medos que estão te paralisando, que estão te incomodando, povoando a sua cabeça.

O medo como sobrevivência

Tem um outro ponto interessante que a gente precisa refletir. Precisamos entender que o medo também tem uma função evolutiva. Na verdade, o medo nos afasta dos perigos. Então, ele tem também lá o seu lado bom, mas isso é o que a gente chama do medo da sobrevivência. E a gente tem aquele medo que é uma criação humana. Vamos ouvir mais um trechinho do que a Heloísa fala sobre isso:

O medo que faz a gente atacar ou fugir, ele é do bicho. Então esse a gente não tem controle. Mas o que mais pega no humano, e daí é o medo humano não, é o medo que a gente inventou, é o medo que paralisa, é o medo que impossibilita. Esse medo precisa ser olhado, precisa ser visto.

A gente vai fazer isso: nós vamos atacar por medo, ou então nós vamos fugir, quer dizer, eu não me coloco nas situações ou diante das situações eu me paraliso.

E aí eu volto de novo na reflexão: “medo de quê?”. Quer dizer, que medo é esse? E para eu saber qual é o medo, eu preciso saber qual é a minha fantasia. Porque não existe medo se não houver um pensamento”.

O medo só existe quando temos um pensamento

Quando Heloísa fala que o medo só existe quando temos um pensamento, rapidamente eu voei lá para filosofia, para o estoicismo, que é uma coisa que eu tenho estudado bastante e tem me ajudado bastante em várias questões. E lembrei de um pensamento de um dos filósofos estoicistas chamado Epíteto.

Ele fala que a única coisa sobre a qual nós temos controle é a nossa mente, ou seja, os nossos pensamentos. Então mesmo que a gente não possa controlar os fatores externos, a gente pode pelo menos controlar como é que a gente vai reagir a eles.

A gente tem o poder de mudar a forma como a gente percebe essas coisas que estão fora da gente, que não estão no nosso controle.

Não dê ouvidos ao que os outros falam

Tem outra coisa que acontece muito quando a gente fala, por exemplo, que vai viajar sozinha. As pessoas acabam dando opiniões, muitas vezes pessoas que nem viajaram ainda sozinhas têm umas opiniões bem formadas.

Então a gente acaba ficando com medo do processo de viajar sozinha. A pessoa fala: “mas e se acontecer?”, ou seja, coisas que estão fora do nosso controle, que a gente não tem como prever. Ou então elas falam: “você não acha que vai ser muito difícil você chegar à Grécia sem falar grego?”.

O mundo já vem trazendo todas as questões: “ah, como vai ser difícil”, “ah, como vai ser perigoso”, “vai ser muito chato você viajar sozinha”. Eles te desencorajam.

Então, acho que é uma questão muito importante: a gente não dar ouvido ao que os outros estão falando. Isso é muito, muito, muito importante!

Porque eu acho que se eu fosse ouvir exatamente tudo que as pessoas falam… Claro que é impossível a gente não ouvir nada. A gente ouve, mas depende do que a gente vai fazer com isso que a gente ouviu.

Mas se eu fosse depender disso, talvez eu não tivesse feito grandes coisas na minha vida. Talvez eu nunca tivesse viajado sozinha, talvez eu nunca tivesse saído da Coca-Cola, porque as pessoas iam falar “mas tu vai viver do que? Tu vai ganhar dinheiro como?”. As pessoas te colocam medos o tempo todo, fazem você sentir medo daquela situação desconhecida. O medo acaba se alimentando desse desconhecido. Então eu acho que é uma coisa importante você não dar ouvidos.

Ganho secundário e paralisar por conta do medo

E o que muitas vezes costuma acontecer com várias pessoas, várias mulheres e acontece comigo, mas talvez em outras áreas da minha vida, é a gente acabar paralisando. A gente foge daquilo, a gente não faz. Então se a gente não faz, a gente não sofre.

E aí até eu falei esses dias no outro podcast que é o “por que você não viaja sozinha”? Por que você não faz alguma coisa? É aquele tal do ganho secundário que a gente tem quando a gente deixa de fazer alguma coisa. E aí você precisa pensar qual é o seu ganho secundário quando você não viaja sozinha.

Queria que você escutasse mais um trechinho da Heloísa Capelas falando sobre a questão de paralisar por conta de um medo:

“Como é que eu me protejo desse medo? Não é com a paralisia. A gente não protege o medo não fazendo. Muito pelo contrário, a gente aumenta o medo. Porque eu não vou viajar porque eu tenho medo de avião.

Há muita gente que tem medo de avião, nem consegue entrar. Eu trabalho com visualização. A gente cura uma porção de coisas se a gente inventar. A nossa cabeça inventa tudo.

A realidade que nós vemos, que realidade é essa? O que eu estou vendo aqui não sei se é o que você está vendo. O que nós estamos conversando, não sei se é o que você está ouvindo. Se nós quatro resumirmos a nossa conversa, cada uma vai contar uma parte da conversa ou o seu jeito de entender a conversa. Isso é realidade.

Portanto, a gente inventa a realidade. Então invente a realidade que você quer. E eu não estou inventando, não estou falando isso que é mentira. Isso é ciência. A neurociência já mostrou isso.

Se eu criar ou se eu viver, os meus neurônios não sabem qual é a verdade. Ué, então por que eu não posso fazer um trabalho de visualização para entrar no avião?”.

Bom, isso me lembra aquela frase que a gente fala “se der medo, vai com medo mesmo”. Na verdade, a paralisia não é uma solução. Paralisia não é a gente lidar da melhor maneira com isso.

Então a minha sugestão é aqui é: crie um desafio para você, que vá te levar a agir. Não precisa, obviamente, comprar uma passagem aérea para China amanhã. Justamente ao contrário, é você se respeitar e fazer as coisas devagar.

Eu sempre digo, se você não está acostumada, na verdade esse medo vem justamente do desconhecido. A gente não está acostumada a fazer isso, a fazer aquilo, a viajar sozinha. E aí a gente tem um certo medo. E nós estamos falando de um medo que a gente consegue administrar.

Então, tente se desafiar, crie um desafio que te leve à ação, a você agir aos poucos. Porque quanto mais você se desafiar, mais você vai estar trabalhando com a sua coragem, mais você vai estar entendendo que você é capaz.

Você pode começar devagar, pode ir ao cinema sozinha, ao museu sozinha, depois você pode passar um final de semana sozinha em algum lugar que você já conheça, que vai te dar mais segurança.

Essas são as dicas que normalmente eu dou. Mas a gente tem que ter atenção aqui numa coisa. A gente tem que observar e ver se a gente tem capacidade de trabalhar esse medo sozinha ou se a gente precisa da ajuda de outra pessoa.

Então, talvez você escutando esse podcast, escutando Heloísa, procurando outras pessoas que falem sobre o assunto, pode ser que você consiga destravar esse teu medo. E pode ser que não e está tudo bem. É isso que você tem que entender.

E se você realmente quer destravar esse medo, resolver essa questão, tem solução. A Heloísa, por exemplo, fala que trabalha muitos medos com visualizações. Você pode procurar uma pessoa, um especialista, uma pessoa que saiba lidar, que tem experiência e que possa te ajudar nessa missão.

O medo é um assunto bastante denso. Então eu queria agora tentar fazer um resumo do que a gente viu aqui através das falas da Heloísa Capelas. Inclusive a procurem, ela é genial. Me ajudou muito nos meus estudos e a entender muitas coisas. É uma pessoa que vale a pena você seguir.

Recapitulando

Então vamos recapitular: a primeira coisa que a gente falou aumentarmos a consciência. Já que o medo se alimenta do desconhecido, vamos entender do que a gente tem medo. Então entenda isso: do que a gente tem medo, a gente tira o medo lá daquela coisa enorme, aquele monstro enorme, e traz para um nível em que a gente consegue administrar.

“Nós só controlamos a nossa mente”. Quem diz isso é Epíteto, um filósofo do estoicismo “Nós criamos a nossa realidade”, na voz de Heloísa Capelas. Mas quem fala sobre isso é a neurociência. A gente não vai se proteger, não vai resolver nada paralisando. Então por isso a ideia que eu dei, da gente criar um desafio e partir para ação.

E, claro, que se você achar que você não consegue administrar e lidar com isso sozinha, procure ajuda. A gente está cheio de profissionais maravilhosos e procurar ajuda não é vergonha alguma. Então faça isso.

E por último: não dê ouvidos ao que as outras pessoas estão dizendo. Bom, na verdade você não vai deixar ninguém falando sozinho, você vai escutar, mas procure parar, refletir e veja se isso realmente faz sentido para você.

Espero que vocês tenham gostado. Esse assunto não se encerra aqui, eu ainda pretendo trazer outras pessoas para conversar sobre isso. O medo é um assunto bastante importante. Todos nós temos, independente de gênero, idade. Então é um assunto que a gente sempre vai falar por aqui.

Eu espero que você tenha gostado! Se você quiser participar mandando sua pergunta ou se você quiser contar para mim do que você tem medo, você pode mandar um e-mail para papode@viajantesolo.com.br. Se você quiser receber as minhas dicas semanais, você pode mandar o seu nome e sobrenome por WhatsApp no número (21) 99368-2512.

E se você gostou desse assunto, dá um like, compartilha com as suas amigas que também têm medo de viajar sozinha. Quem sabe essas frases, essas ideias que a Heloísa deu que eu estou te dando podem ajudar outras pessoas, tá bom?

Eu sou Denise Tonin e até o próximo Papo de Viajante solo. Um beijo!

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