As mulheres que viajam sozinhas são parte de um movimento que cresce no Brasil e no mundo. O que antes era visto como exceção hoje se torna cada vez mais comum — e levanta uma questão importante: o turismo está preparado para essa nova realidade?
Neste artigo, você vai entender por que mais mulheres estão viajando sozinhas, o que está por trás desse comportamento e o que já está mudando — e o que ainda precisa mudar — para que essas viagens sejam mais seguras e bem estruturadas.
O desejo de viajar não é novo — mas agora virou realidade
O desejo de viajar não é novo — mas agora virou realidade. Viajar está entre os maiores sonhos das mulheres — e isso não é recente. A pesquisa Os Sonhos Delas, realizada pelo Think Olga em 2025, mostra que viajar pelo mundo é o sonho mais comum entre mulheres brasileiras, independentemente da idade ou da condição social.
Esse dado ajuda a entender algo importante: viajar não é apenas um desejo pontual, mas um projeto de vida que atravessa gerações. O que muda agora é que esse sonho está se tornando cada vez mais possível — e mais visível.
Quando criei o Viajante Solo, em 2014, esse cenário era bem diferente. Pouco se falava sobre mulheres que viajam sozinhas no Brasil, e a ideia ainda carregava muitos medos, julgamentos e dúvidas. Ao longo dos anos, acompanhando de perto esse movimento — e vivendo na prática cada uma dessas experiências — ficou claro que algo estava mudando.
Hoje, esse comportamento deixou de ser exceção. Cada vez mais mulheres estão viajando sozinhas, seja por escolha, necessidade ou oportunidade. E esse crescimento não acontece por acaso: ele está diretamente ligado a mudanças no papel da mulher na sociedade, no acesso à informação e na forma como elas se relacionam com o próprio tempo e com o mundo.
Mas esse avanço também expõe um ponto importante: enquanto as mulheres mudaram, o turismo ainda está se adaptando. A estrutura, o atendimento e, principalmente, a segurança nem sempre acompanham essa nova realidade — e é justamente aí que começa a discussão que vamos aprofundar a partir de agora.
Mais mulheres estão viajando sozinhas — e isso muda o turismo
Se antes viajar sozinha era visto como algo fora do padrão, hoje esse comportamento já faz parte da realidade de muitas brasileiras. Um levantamento do Ministério do Turismo, realizado em parceria com a UNESCO e divulgado em 2026, mostra que quatro em cada dez mulheres já viajaram sozinhas, e uma parcela significativa passou a repetir esse tipo de experiência com frequência.
A pesquisa foi realizada em 2025 com 2.712 mulheres de todas as regiões do país, reunindo dados sobre comportamento, motivações e desafios enfrentados por quem viaja sozinha.
Esse cenário mostra uma mudança clara: a viagem solo deixou de ser exceção e passou a ser uma escolha. E essa escolha está diretamente ligada a fatores como autonomia financeira, maior acesso à informação e uma relação diferente com o próprio tempo.
Ao longo dos últimos anos, acompanhando esse movimento de perto através do Viajante Solo, ficou evidente como esse comportamento deixou de ser pontual para se tornar cada vez mais comum — algo que, quando o blog começou, ainda estava longe de acontecer no Brasil.
Perfil das mulheres que viajam sozinha
Outro ponto importante é o perfil dessas viajantes. Ao contrário do que muita gente ainda imagina, elas não são majoritariamente jovens mochileiras. A maior parte está entre os 30 e 40 anos, tem vida profissional ativa e busca viagens que combinem liberdade, segurança e experiências com significado.
Motivações para viajar sozinha
Além disso, as motivações ajudam a entender esse movimento. Viajar sozinha não está necessariamente ligado à aventura, mas sim a lazer, independência e autoconhecimento — ou seja, trata-se muito mais de uma decisão consciente do que de uma situação circunstancial.
E quando esse comportamento cresce, ele inevitavelmente pressiona o mercado. Mais mulheres viajando sozinhas significa novas demandas — por segurança, por acolhimento e por serviços pensados para esse público. E é justamente nesse ponto que surge um descompasso: enquanto a demanda cresce, a adaptação do turismo ainda acontece de forma lenta e desigual.



O turismo ainda não foi pensado para mulheres que viajam sozinhas
Se por um lado as mulheres mudaram, por outro o turismo ainda está se adaptando a essa nova realidade. Durante muito tempo, a indústria foi estruturada considerando viagens em grupo, em casal ou em família — e não a experiência de quem viaja sozinha.
Isso aparece em diferentes pontos da jornada. Desde a escolha da hospedagem até o deslocamento no destino, muitas decisões ainda exigem um nível extra de atenção por parte da mulher. Questões como segurança, localização, iluminação das ruas, transporte confiável e até o atendimento em estabelecimentos passam a ter um peso maior.
Mas o problema não é só estrutural — ele também é prático.
Os estabelecimentos ainda não estão preparados para quem está sozinha
Outro ponto que muita gente só entende na prática é a experiência de comer sozinha. Em muitos restaurantes, a primeira pergunta ao chegar já evidencia isso: “mesa para quantos?”. Quando você está sozinha, essa pergunta — ainda que comum — pode ser desconfortável, porque reforça a ideia de que o padrão esperado é estar acompanhada. Bastaria uma abordagem diferente, como “é só para a senhora ou vem mais alguém?”, para tornar essa experiência mais natural.
Além disso, ainda é comum que mulheres desacompanhadas sejam direcionadas para as piores mesas — perto da cozinha, do banheiro ou em cantos menos valorizados do salão. É um detalhe, mas que mostra como o atendimento ainda não está preparado para quem viaja sozinha.
Outro exemplo prático é o tamanho das porções. Muitos restaurantes não oferecem opções individuais, o que acaba obrigando quem está sozinha a pedir pratos maiores do que o necessário. Isso significa desperdício de comida e, muitas vezes, um custo mais alto por uma experiência que não foi pensada para uma pessoa só.
Falei sobre isso com mais profundidade no texto Mesa pra uma: como é comer sozinha em viagem.
O custo de viajar sozinha ainda é maior
Um exemplo claro é o chamado single supplement, uma taxa adicional cobrada de quem viaja sozinha em hotéis, cruzeiros, passeios e pacotes turísticos. Para as mulheres que viajam sozinhas, isso significa, na prática, pagar mais simplesmente por não dividir o espaço com outra pessoa.
Em hotéis, ao reservar um quarto single, você não paga metade do valor de um quarto duplo. Na maioria das vezes, paga a metade mais um adicional, justamente o single supplement. Ou seja, viajar sozinha acaba sendo proporcionalmente mais caro.
Nos cruzeiros, esse cenário fica ainda mais evidente. Com exceção de algumas companhias que já criaram cabines específicas para viajantes solo, a regra geral ainda é outra: você paga como se estivesse ocupando uma cabine dupla. Mesmo viajando sozinha, é comum ser cobrada por dois lugares.



E isso não é só teoria. Eu mesma nunca fiz um cruzeiro — e não é por falta de vontade, mas porque não faz sentido pagar por duas pessoas sendo que eu não vou consumir como duas. Não vou comer por duas, não vou beber por duas, não vou usar a estrutura como duas pessoas.
Mesmo quando existem cabines para viajantes solo, muitas vezes elas são as menos privilegiadas — mal localizadas, sem janela ou com estrutura mais limitada. É como se as mulheres que viajam sozinhas fossem penalizadas por essa escolha, sem direito a conforto ou vista para o mar.
Esse tipo de cobrança mostra como a estrutura do turismo ainda está baseada na lógica de dupla ou grupo — e não de quem viaja sozinha.
O que já está mudando no Brasil
Se por um lado o turismo ainda não acompanha totalmente a realidade das mulheres que viajam sozinhas, por outro já existem sinais claros de mudança — inclusive no Brasil.
Iniciativas no turismo
Nos últimos anos, começaram a surgir iniciativas voltadas para tornar a experiência mais segura e estruturada. Um dos exemplos mais relevantes é o programa Viajantes + Seguras, criado no Paraná, que capacita profissionais do turismo, estabelece protocolos de atendimento e certifica empresas comprometidas com a segurança das viajantes.
Foz do Iguaçu também avançou nesse sentido ao reunir, em uma única página chamada Foz Destino Seguro para Mulheres, diferentes programas de proteção à mulher no turismo, facilitando o acesso à informação e conectando iniciativas como o próprio Viajantes + Seguras e o protocolo “Não é Não”
Mobilidade e deslocamento
Além das ações no setor turístico, começam a surgir soluções específicas para um dos pontos mais sensíveis da viagem: o deslocamento. Um exemplo é o recurso Uber Mulher, que passou a ser disponibilizado em cidades como Salvador e permite que passageiras priorizem corridas com motoristas mulheres, aumentando a sensação de segurança durante o trajeto. Esse tipo de funcionalidade também vem sendo ampliado para outras cidades do país.
Avanços institucionais
O Ministério do Turismo lançou recentemente o Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, com orientações práticas e dados sobre o perfil das viajantes brasileiras. E também um guia com Dicas para Atender Bem Mulheres, material direcionado ao setor turístico, com recomendações de atendimento e boas práticas para receber melhor esse público.
Além disso, iniciativas como cursos para combater o assédio no turismo — como o promovido pela Embratur em parceria com o Instituto Livre de Assédio — mostram que o tema também está avançando na qualificação do setor.
Outro exemplo é o projeto de lei que combate a violência contra a mulher em áreas turísticas, que já foi aprovado no Senado e agora segue para análise na Câmara dos Deputados. A proposta prevê a criação de pontos de atendimento à mulher em áreas turísticas, especialmente em locais com maior circulação de pessoas, além da capacitação de profissionais do setor para identificar e agir em situações de assédio e violência.
Também inclui melhorias na infraestrutura desses espaços, como iluminação adequada e mais segurança em pontos de embarque e desembarque, além de exigir que serviços de transporte ofereçam mecanismos de alerta para situações de risco durante as viagens.
Na prática, o projeto reconhece que a segurança das mulheres precisa fazer parte da estrutura do turismo — e não ser tratada apenas como uma responsabilidade individual de quem viaja.
Ainda assim, essas mudanças são recentes e, muitas vezes, pontuais. Elas indicam um caminho — mas também deixam claro que ainda há muito espaço para evolução.
Para as mulheres que viajam sozinhas, isso significa conviver com um cenário em transição: ao mesmo tempo em que surgem novas soluções e iniciativas, a experiência ainda depende muito do destino, do tipo de viagem e do nível de preparo de cada lugar.
Um cenário em transição — mas ainda com desafios reais
Para as mulheres que viajam sozinhas, isso significa conviver com um cenário em transição: ao mesmo tempo em que surgem novas soluções e iniciativas, a experiência ainda depende muito do destino, do tipo de viagem e do nível de preparo de cada lugar.
Ainda assim, esse cenário já é muito diferente — e melhor — do que quando comecei a viajar sozinha. Naquela época, não havia praticamente nenhuma iniciativa voltada para a segurança ou o acolhimento de mulheres viajantes. Tudo dependia de um planejamento extremamente cuidadoso, com atenção constante a riscos (isso até hoje), deslocamentos e situações de vulnerabilidade que fazem parte da experiência feminina na estrada.
Hoje, mesmo com todos os desafios que ainda existem, já é possível ver avanços concretos. Mas a realidade é que, para muitas mulheres que viajam sozinhas, a segurança ainda não é garantida — ela continua sendo construída, decisão por decisão, ao longo de toda a viagem.
Viajar sozinha deixou de ser exceção — e o turismo precisa acompanhar
Viajar sempre esteve entre os maiores sonhos das mulheres, como mostra a Os Sonhos Delas, do Think Olga. A pesquisa aponta que viajar pelo mundo é o desejo mais comum entre mulheres brasileiras, aparecendo de forma consistente em todas as faixas etárias e classes sociais.
Mais do que um plano de lazer, o estudo mostra que esse sonho está diretamente ligado a algo mais profundo: liberdade, autonomia e a possibilidade de viver experiências fora das limitações impostas no dia a dia. O que mudou é que esse desejo deixou de ser apenas um plano distante — e passou a ser colocado em prática.
As mulheres mudaram. Estão mais independentes, mais seguras das próprias escolhas e mais dispostas a ocupar espaços que não foram – e ainda não são – pensados para elas. E isso inclui viajar sozinha. O turismo, por outro lado, ainda está em processo de adaptação. Já existem poucas iniciativas, alguns avanços institucionais — mas ainda de forma desigual e insuficientes.
Para as mulheres que viajam sozinhas, isso significa seguir desbravando caminhos que não foram feitos para elas e, ao mesmo tempo, contribuir para transformar esse cenário. Porque, quanto mais mulheres viajam sozinhas, mais esse movimento se fortalece — e mais o turismo é pressionado a evoluir.
E se hoje falar em viagem solo se tornou comum, é porque muitas mulheres começaram antes, enfrentando medos, desafios e um cenário nada preparado para recebê-las. É assim que as mudanças acontecem: passo a passo, viagem após viagem.










