Percepção, boa vontade e Veneza com chuva

Transcrição do Podcast Papo de Viajante Solo – EP#09

Controle suas percepções, direcione suas ações e aceite de boa vontade aquilo que está fora do seu controle

Ryan Holiday.

Você já chegou em algum destino e sua expectativa foi, literalmente, por água abaixo? Veneza foi assim. Mas sabia que é possível usar superpoderes para mudar tudo e curtir de qualquer forma? Neste episódio, Denise fala sobre 3 princípios do estoicismo que podem ajudar nesse desafio que é curtir a sua viagem de qualquer forma!

Você pode ler o texto ou apertar no play e ouvir o podcast.

Olá, tudo bem? Mais um Papo de Viajante Solo e hoje quero falar sobre percepção, ação e boa vontade. Estes são três princípios do Estoicismo, que é uma filosofia bem antiga da Grécia, de 300 anos antes de Cristo.

Eu andei comentando com vocês, acho que no Instagram talvez, não sei se por aqui, mas que eu andei no ano passado, desapegando de algumas coisas que não faziam mais sentido para minha vida, para o meu momento.

Nada grave assim, não foi só desapego de coisas materiais, mas de coisas, de pessoas, de hábitos, enfim, de coisas que não faziam mais sentido para mim. É super legal e saudável a gente fazer isso, mudar. É libertador, é super bacana isso.

E aí uma das coisas que eu comecei a fazer no ano passado foi começar a ler o estoicismo. Estoicismo é uma filosofia bem antiga da Grécia, mas que teve seu ápice em Roma. O Ryan Holiday é um autor e tem vários livros. Ele tem um livro em que pegou 366 pensamentos sobre sabedoria, perseverança e a arte de viver. São filósofos como Sêneca, Marco Aurélio, Epíteto, entre outros.

Então, todo dia de manhã faço a leitura de um pensamento e isso me faz parar para refletir um pouquinho sobre a vida. Porque nessa loucura que a gente vive hoje, de correria do dia a dia, de todas as coisas que a gente tem para fazer, cozinhar, ficar linda, trabalhar, postar nas mídias sociais, escrever no blog, enfim, fazer 300 coisas ao mesmo tempo, a gente acaba esquecendo de pensar.

É uma coisa que a gente tem o privilégio de poder fazer: parar e pensar. Então eu queria falar hoje sobre três coisinhas que estão na filosofia estoica.

Percepção

Na verdade, às vezes a gente acaba sofrendo em algumas situações que, se a gente parar para pensar, se a gente refletir sobre isso, vai ver que não está sofrendo por causa do fato em si. Na verdade, a gente sofre por causa da forma como a gente está percebendo a situação.

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Ação

A segunda coisa é ação. Como já dizia Newton, toda ação gera uma reação. Só que a gente não sabe qual a reação que vai vir, então, o melhor que a gente faz é não pensar nessa reação, não pensar no que vai vir.

A gente pega aquilo que tem ali no momento, aquela informação. Para e pensa naquele momento, no momento presente, no agora, e vai agir de acordo com o que a gente tem ali de informação, toma uma ação, faz alguma coisa.

Boa Vontade

E a outra questão é a vontade, a boa vontade. A gente muda aquilo que a gente pode mudar e aceita, de boa vontade, de bom grado, aquilo que está fora do nosso controle, que a gente não pode mudar.

Veneza com chuva

É aí aonde eu quero chegar nessa minha reflexão de hoje, que foi uma reflexão que tive hoje pela manhã. Lembrei de uma historinha que foi agora em maio, exatamente no dia 12 de maio, eu cheguei em Veneza, era um sábado.

Eu cheguei em Veneza, estava super nublado, depois de uma viagem de avião longa de Paris. Longa, porque saí da casa dos meus amigos, peguei um trem, depois um ônibus, aí eu fui até o aeroporto mais longe. Peguei o voo, cheguei em Veneza, peguei um ônibus e fui até Mestre. Em Mestre, peguei um Vaporetto para ir à Veneza mesmo, para o centrinho. Desci do Vaporetto, caminhei, me perdi, lógico. Cheguei ao hotel e o meu hotel não era o que eu estava esperando. Enfim, nublado, aquela coisa.

E aí a gente começa a ficar sem perceber. Lembra da percepção que eu falei? A gente começa a perceber aquela coisa ali um pouco com mau humor. Comecei a ficar de mau humor. Subi, larguei minhas coisas, o hotel não era o que eu estava imaginando e muito menos o que estava escrito lá no Booking, que dizia que era fabuloso.

Não era fabuloso, era normal, também não era horroroso. Hoje eu acho que não era tão horroroso, mas quando cheguei, vai juntando essas coisas todas, essa percepção.

Daí eu falei: “Tá bom, só tenho um dia, não está chovendo. Vou aproveitar que não está chovendo e vou até a Piazza San Marco, já que estou em um hotel super bem localizado”. E fui.

Já no caminho, paguei 10 euros por um guarda-chuva vagabundo, porque só a minha capa de chuva não ia adiantar, não ia dar conta da quantidade de água que estava prometendo, porque fui ver a previsão do tempo.

Fui até Piazza San Marco, me perdi para voltar para o hotel. Levei um monte de encontrão, a cidade estava lotada. Começou a chover, tinha guarda-chuva, pessoas com guarda-chuva aberto naquelas ruelinhas.

Me perdi e pedi ajuda, porque o Google Maps pirou. Na verdade, eu mesma que não tinha orientação e também Veneza não é uma coisa muito fácil de andar. Enfim, eu cheguei ao hotel. Eu já estava com um mau humor insuportável. Ainda tinha que subir lá os três andares de escada.

Eu acho que nem eu mesma estava me aguentando de tão irritada que estava e isso porque eu só tinha mais um dia de viagem para conhecer Veneza. Porque Veneza não estava no plano, ela entrou no plano. Eu estava indo, na verdade, para Cittadella buscar os documentos do meu bisavô para a cidadania.

A previsão era chuva torrencial no único dia que eu que eu ia estar por lá. Então juntaram todas essas questões. Se a gente parar para pensar, tirando o hotel que foi uma escolha minha, eu não tinha controle. Eu não tinha controle de tudo isso.

O fato é que eu estava com fome e resolvi descer. Eu estava em um hotel bem localizado e resolvi sentar para comer. Eu falei: “Bom, vou comer bem, vou tomar um vinho e vou dormir. Amanhã é um novo dia e eu tento aproveitar. Não tenho mais nada para fazer hoje por aqui. Já fui à Piazza San Marco, já vi os barquinhos e agora é descansar desse dia longo e não muito bom”.

E o que aconteceu? Tomei um vinho, sentei em uma mesinha na rua, a pizza estava maravilhosa, o vinho estava ótimo. Aí comecei a parar para pensar. Fiquei olhando lá o movimento, turista vai, turista vem. E aí comecei a refletir e pensar:

“Puxa, estou em Veneza. Sempre quis vir em Veneza. Paciência que está chovendo. Eu tive duas horinhas sem chuva, deu para ver os barquinhos, vi a Piazza San Marco. Liguei para a minha irmã, mostrei para ela em vídeo. Eu posso escrever para o blog sobre o que fazer em Veneza com chuva em um dia. Ou então eu não preciso escrever de Veneza”.

Na verdade até hoje não escrevi. E amanhã vou tentar visitar as atrações que são cobertas e depois posso ficar andando de Vaporettto para lá e para cá na cidade. Veneza vai continuar no mesmo lugar, se ela não afundar, como as pessoas falam. Mas, enfim, eu posso voltar uma outra vez, porque não é a minha visita única à Itália, afinal de contas eu vou tirar a cidadania italiana”.

E aí para fugir tentar esse meu sofrimento, que na verdade era a minha percepção rabugenta daquela situação, eu comecei a mudar esse pensamento e eu comecei a aceitar as coisas que estavam acontecendo, como a chuva, por exemplo, que eu não podia mudar. E aí claro que o vinho também ajudou.

Mas onde estou querendo chegar com esse podcast, com tudo o que eu falei aqui? Que se a gente ousa parar um pouco e usar a nossa inteligência, usar o nosso poder de reflexão, mudar a nossa percepção, ver por um outro ângulo, talvez as coisas do nosso dia a dia, da nossa breve passagem nessa vida, podem ser bem mais leves e a gente pode se divertir muito mais.

Acabou que no meu dia em Veneza eu visitei algumas atrações cobertas, dormi até um pouco mais tarde, descansei. Era uma viagem de 3 meses que eu ia ficar na Europa. Então, tirei aquela ansiedade, acordei um pouco mais tarde, tomei um café com calma, saí com o meu guarda-chuva e com a minha capa de chuva maravilhosa que valeu o investimento. Eu tinha comprado essa capa em Nova York e é uma capa maravilhosa, porque ela segurou bem, mas precisei ainda do guarda-chuva vagabundo de 8, 10 euros.

Mas enfim, no meu dia, quando consegui mudar essa percepção, consegui aceitar que ia chover, que eu podia voltar para Veneza, fiquei andando de Vaporetto como eu pensei no dia anterior, tirei fotos, caminhei.

Aí quando me irritei de tomar trombada das pessoas e guarda-chuva na cara, eu fiquei no hotel, fui escrever, gravei stories. Ou seja, mudei a minha percepção. Almocei em um restaurante super legal.

Eu fui ver outras coisas que poderiam enriquecer o meu dia e que era possível então ser feliz em Veneza com chuva. Simplesmente pelo fato de eu mudar a minha maneira de encarar tudo aquilo e aceitar de boa vontade aquilo que estava acontecendo para mim naquele dia e o poder de agir de forma diferente.

Buscar um restaurante bem legal para comer, ver quais eram as atrações que eu podia visitar com calma em um lugar coberto, apesar de que estava tudo bem cheio, porque todo mundo teve a mesma ideia, lógico. Mas, mesmo assim, eu posso dizer que o meu dia valeu e o meu mau humor foi só naquele momento em que eu cheguei na cidade e que não foi aquilo que eu esperava.

A gente sempre cria algumas expectativas em relação às coisas que a gente não tem controle e aí quando elas não saem exatamente como a gente quer, a gente começa a perceber aquilo com mau humor: “Pô, que saco! Que droga! Podia ter sol!”. Só que são coisas que a gente não tem controle.

Então fica aqui a minha reflexão para você de que a gente pode:

(1) mudar a percepção que a gente faz das coisas;

(2) a gente não tem como saber qual é a reação daquela ação, então a gente tem que agir com aquilo que a gente tem no momento. Está chovendo? OK, está chovendo. Então o que eu posso fazer? Eu posso ir a um museu, eu posso comer em um bom restaurante, eu posso acordar mais tarde, posso aproveitar o dia para descansar; e

(3) a boa vontade aqui é que a gente só pode mudar aquilo que a gente tem controle e a gente tem que aceitar de boa vontade, de bom grado, aquilo que está fora do nosso controle. A gente tem que, simplesmente, ter boa vontade com essas coisas. Aí a gente consegue, então, mudar aquele nosso dia, aquele nosso momento e fazer valer a pena.

Espero que você tenha gostado! Eu sou a Denise Tonin e esse foi mais um Papo de Viajante Solo“.

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